22
Dez 06

Lucky Luke, criado por Morris em 1946, já entrou na terceira idade de um percurso muito vivido: começou como cowboy agressivo de cigarro a cair do lábio, pronto a esmurrar qualquer malfeitor; podado pelo correr do tempo passou a herói moderadíssimo de palhinha na boca; deu origem a uma revista (efémera) com o seu próprio nome; foi adaptado para o cinema de animação e também para imagem real (interpretado por Terence Hill); tornou-se imprescindível sob a alçada de Goscinny e acabou risível debaixo de Morris e de uma equipa de muito duvidoso talento, que praticamente matou a personagem em termos artísticos. Mas quando o túmulo de Lucky Luke começava a ser escavado, eis que ressuscita surpreendentemente, pelas mãos da dupla francesa Achdé e Gerra. Por tudo isto, este álbum de Lucky Luke torna-se um marco, porque nos permite descobrir o talento de Laurent Gerra, verdadeiro fã da série, no seu novo papel de argumentista e constatar que Achdé é um notável “imitador” do Mestre Morris. É também o primeiro volume das novas aventuras na era-pós Morris, daí a mudança de antetítulo para “As aventuras de Lucky Luke segundo Morris”. Portanto, todos os fãs do “cowboy solitário” podem agora continuar a seguir as suas histórias, desta vez com uma lufada de “ar fresco”, tão agradavelmente actual e satirica. Resumindo, estamos perante uma agradável (e tão desejada) surpresa. Não poderia ter havido “ressurreição” melhor!

É esta injecção de talento que faz de Lucky Luke no Quebeque um êxito. Retomar uma série é sempre uma tarefa complexa, sobretudo quando se trata de um mito como Lucky Luke, criado e animado quase durante 50 anos por um dos grandes génios da Banda Desenhada, o imenso Morris.

No desenho, Achdé demonstra através das suas séries que é capaz de ressuscitar com respeito e criatividade o mais célebre cowboy da Banda Desenhada, sendo muito respeitoso no tratamento de Lucky Luke, mas o seu traço é bem mais rico e tridimensional (digamo-lo francamente: desenha melhor do que Morris) e a sua planificação é bastante inventiva, havendo um corte profundo, mas feliz, ao nível gráfico.

A Laurent Gerra, o mais popular imitador e humorista da última década em França (ou seja, o Herman José francês), coube a tarefa de suceder a Goscinny, De Groot e Nordmann. A aposta foi ganha.

Aliás, Gerra consegue ir mais longe, elaborando um argumento consistente e original, deitando mão a anacronismos típicos de Goscinny, - mas em Astérix e não em Lucky Luke - e divertindo-se com trocadilhos de fazer inveja ao francês (como a piada do hot dog), tais como as alusões aos hiper-mercados Leclerc ou ao activista anti-globalização Joseph Bové. Fiel apreciador da série, Laurent Guerra recupera os melhores momentos de Lucky Luke e dá-lhe o seu toque pessoal através de uma incrível sucessão de personagens secundários deliciosos, de Céline Dion, cantora de cabaret, a Levy Strauss, inventor dos jeans, que facilmente nos fazem esquecer dos irmãos Dalton.

A história assemelha-se a um clássico. Lucky Luke parte em direcção ao Quebeque à procura da apaixonada de Jolly Jumper. No faroeste francófono, o cowboy solitário cruza-se com um velhaco que pensa que o dinheiro tudo pode comprar. Perseguições, cavalgadas, duelos na neve e, evidentemente, batalhas de salão épicas, todos os ingredientes estão lá para gáudio dos leitores, pequenos e grandes.

A história tem destas ironias: foi preciso que o criador morresse para a sua criação ganhar vida!

publicado por AS às 21:28

Após o lançamento do EP de estreia (2005), os Linda Martini (nome emprestado por uma amiga italiana que ainda hoje parece não acreditar que criaram uma banda com o seu nome) surgem este ano, com o seu primeiro registo de longa duração “Olhos de Mongol.” Este titulo é uma referência ao escritor norte-americano Henry Miller que assim descreve a troca de olhares entre perfeitos desconhecidos que, por nenhuma outra razão além do olhar, estabelecem uma empatia imediata.

 São considerados um dos maiores alicerces de uma espécie de novo-rock português energético, intenso e transmitido maioritariamente por boca-a-boca. Há quem os chame dos “Artic Monkeys” lusos em virtude da utilização da intenet, principalmente através do MySpace da banda, como principal veiculo promocional.

 É neste “Olhos de Mongol” que mostram algumas das suas origens, isto porque pegam num sample de “FMI” de José Mário Branco na faixa “Partir para ficar”, combinando melódicas e harmónicas com paisagens sonoras assentes num rock sujo e visceral. As guitarras estão sempre no limite, aliás esta é uma constante na sua musica, muitas vezes quase que se sobrepõem à voz. Surgem momentos que nos fazem lembrar Ornatos Violeta, mais uma das suas referências. Curiosamente, um dos aspectos que os torna unicos é, de facto, uma identidade bastante vincada, e para isso contribui a forte presença de frases fortes nas suas letras. Podem não ser particularmente inspiradas, mas viciam, não nos saem da cabeça e parecem que nos “seguem” para todo o lado. A voz de André Henriques pode não ser a melhor, muitos reclamam que este devia por vezes “trabalhá-la” melhor em palco, mas a verdade é que a voz é um instrumento como outro qualquer, e mesmo que as letras não tenham sido escritas para “ele”, ninguém pode negar o facto destas encaixarem perfeitamente na sua voz.

 Cabe agora aos Linda Martini, uma das maiores (ex)-promessas do rock nacional, solidificar em palco toda a bagagem musical presente nos registos em disco. “Olhos de Mongol” está aí para comprovar a banda de Queluz como a mais recente certeza do rock alternativo made in Portugal.

 Alinhamento do álbum

 1. Sinto a cabeça cair
 2. Cronófago
 3. Dá-me a tua melhor faca
 4. Partir para ficar
 5. Estuque
 6. O amor é não haver polícia
 7. Quarto 210
 8. Amor combate
 9. A severa

publicado por AS às 19:45

Dezembro 2006
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
23

24
25
26
27
28
29
30

31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
pesquisar
 
mais sobre mim

AS

FV